Esqueça os elementos sobrenaturais tradicionais da carreira literária de Stephen King. Assim como a obra original, a adaptação televisiva de Mr. Mercedes, primeiro livro da trilogia Bill Hodges do autor, opta pelo terror psicológico e pelo dinâmico jogo de gato e rato para recriar a narrativa policial na qual você sabe, desde o primeiro episódio, quem é o assassino.

Depressivo e mal-humorado, o detetive aposentado Bill Hodges (Brendan Gleeson) não soube lidar bem com a saída antecipada da polícia. Não apenas pela vida monótona que passou a ter em frente à televisão, mas porque deixou em aberto um emblemático caso: o motorista de um Mercedes que atropelou e matou dezenas de pessoas que esperavam, durante a madrugada, a abertura de uma feira de empregos.

O próprio assassino do Mercedes não estava tendo uma vida cheia de emoções. Não à  toa, ele, o educado e totalmente esquecível Brady Hartsfield (Harry Treadaway), encontrou tempo entre seus dois empregos e os cuidados à sua mãe alcoólatra para provocar o detetive que jurou, em rede nacional, que o capturaria. Invadindo o computador de Hodges, deixou uma mensagem que, se não instigasse a curiosidade dele para estabelecer um diálogo, ao menos reforçaria os pensamentos suicidas que o antigo detetive andava tendo.

Ironicamente, a doentia relação entre criminoso e detetive beneficia a ambos e é o desenvolvimento deste jogo conturbado que torna a série interessante. Afinal, a constante sensação de perigo e as trocas de ofensas certeiras dão propósitos e consistência aos dois personagens. O grande mérito para que essa dinâmica funcione está na escalação dos atores. A arrogância e doçura de Gleeson e as repentinas trocas de humor de Treadaway – que teve a responsabilidade de substituir Anton Yelchin depois de sua morte – parecem saídas diretamente da obra de King.

Apesar da antítese presa e predador dar, no primeiro momento, a falsa impressão de que os dois são completos opostos, nota-se com o desenrolar da série que eles têm muito em comum. Para além dos dramas familiares, que são bastante pesados, há, por exemplo, o interesse pela música. Estrategicamente, Mr. Mercedes coloca seus protagonistas ouvindo canções conhecidas, como “Pet Sematary” do Ramones e “Fool For You” do The Impressions, para aproximar a série não só da nossa realidade, mas um personagem ao outro. Usado do primeiro ao último episódio, esse instrumento tem clara função narrativa: ajuda o público a construir a personalidade de cada um – se Brady é punk rock, Hodges é mais blues – e ainda dá tom mais sarcástico ou engraçado, quando cabe.

Sem se apegar literalmente à obra original, a série consegue em algumas ocasiões aparar pontas soltas deixadas por Stephen King e aborda aspectos pouco explorados no livro, como é o caso da paranoia inicial de Hodges. Essa “ampliação” da trama, porém, na maioria das vezes não foi bem-sucedida e este é o grande problema da adaptação. Ida, a personagem de Holland Taylor, por exemplo, foi criada para a série com o objetivo de reduzir a dureza da situação do detetive, oferecendo a ele ao menos um ombro para se apoiar. No entanto, a atuação dela na história é mínima. Ela esteve lá basicamente para ser rejeitada por Hodges no primeiro episódio e passou o restante do tempo como mera espectadora.

Outro problema está na motivação de Brady em matar Janelle (Mary-Louise Parker). Ao inverter o enredo, deixando o assassinato da namorada do detetive acontecer primeiro e, depois, a morte de Deborah Hartsfield (Kelly Lynch), o psicopata perde sua humanidade, construída desde o princípio da série, e vira só um sádico. O mesmo vale para a sua frustrada tentativa de calar Lou (Breeda Wool) no grande evento da cidade. O personagem acaba simplificado.

Por isso, mesmo com todas as alterações, a adaptação cai no mesmo erro do livro: tem início empolgante, mas se perde no final. Ainda assim, o saldo é positivo. Com a segunda temporada já confirmada, cabe torcer para que David E. Kelley e Cia. acertem um pouco mais a mão no roteiro, porque a trilogia pode render temporadas interessantes.